domingo, 12 de outubro de 2008

Última chance

Caros cinéfilos, quem não conseguiu assistir "àquele" filme durante o Festival pode abrir o sorrisão porque vem aí a repescagem. Diversas produções estrangeiras, de várias mostras diferentes, estarão em cartaz nas salas 1 e 3 do Estação Botafogo até o dia 16 de outubro para o deleite de quem achou 15 dias pouco para saciar a sede de cinema. Segue abaixo a programação para os próximos dias. Aproveitem!

* Dia 12

Estação Botafogo 1

17:30 - Velha Juventude (Youth without Youth). Mostra Panorama do Cinema Mundial

20:00 - A Onda (Die Welle). Mostra Expectativa 2008.

22:00 - Sukiyaki Western Django (Sukiyaki Western Django). Mostra 100 anos de Imigração Japonesa - o Japão hoje.

Estação Botafogo 3

17:45 - A Guitarra (The Guitar). Mostra Expectativa 2008.

19:45 - Fomos à Terra dos Sonhos (We Went to Wonderland). Mostra Expectativa 2008.

21:45 - REC (REC). Mostra Midnight Movies.

* Dia 13

Estação Botafogo 1

14:00 - A Raiva (La Rabia). Mostra Premiere Latina.

16:00 - Wonderful Town (Wonderful Town). Mostra Expectativa 2008.

18:00 - Sobre o tempo e a cidade (Of Time and the City). Mostra Foco Reino Unido.

20:00 - Cordeiro de Deus (Cordero de Dios). Mostra Premiere Latina.

22:00 - M - Vidas Duplas (Emu). Mostra 100 anos de Imigração Japonesa - o Japão hoje.

Estação Botafogo 3

13:40 - Operando Milagres (Flying on One Engine). Mostra Limites e Fronteiras.

15:45 - Mortas por Honra (Mazare Mariya). Mostra Limites e Fronteiras.

17:45 - A Corte do Norte (A Corte do Norte). Mostra Panorama do Cinema Mundial.

20:15 - A História Desconhecida de New Orleans (Faubourg Tremé: The Untold Story of Black New Orleans). Mostra Dox.

21:45 - Anita O'Day: A Vida de uma Cantora de Jazz (Anita O'Day: The life of a Jazz Singer). Mostra Midnight Songs.

* Dia 14

Estação Botafogo 1

13:00 - Puffball (Puffball). Mostra Foco Reino Unido.

15:15 - O Pai de Giovanna (Il papà di Giovanna). Mostra Panorama do Cinema Mundial.

17:30 - O Banquete (L'Abbuffata). Mostra Panorama do Cinema Mundial.

19:45 - Gonzo: Um Delírio Americano (Gonzo: The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson ). Mostra Dox.

22:00 - Quatro Noites com Anna (Cztery noce z Anna). Mostra Panorama do Cinema Mundial.

Estação Botafogo 3

13:40 - A milicia de Camarões (Une Affaire de Negres). Mostra Dox.

15:45 - Durakovo: vila de tolos (Durakovo: Village des fous). Mostra Dox.

17:45 - Diego Rivera: A Revolução do Olhar (Un retrato de Diego: La revolución de la mirada). Mostra Doc Latino.

20:00 - Lucio: anarquista, falsificador e ladrilheiro (Lucio). Mostra Dox.

21:50 - Ser como os outros (Be Like Others). Mostra Mundo Gay.

* Dia 15

Estação Botafogo 1

14:00 - A Mãe (La Mère). Mostra Dox.

16:00 - Intimidades de Shakespeare e Victor Hugo (Intimidades de Shakespeare y Victor Hugo).
Mostra Doc Latino.

18:00 - Cavalo de Duas Pernas (Asbe Du-Pa ). Mostra Panorama do Cinema Mundial.

20:00 - E Buda desabou de vergonha (Buda Az Sharm Foru Rikht). Mostra Expectativa 2008.

22:00 - Assim me diz a Bíblia (For The Bible Tells Me So). Mostra Mundo Gay.

Estação Botafogo 3

13:40 - O sal desse mar (Milh Hadha Al-Bahr). Mostra Expectativa 2008.

15:45 - Criando Laços (Niu Lang Zhi Nu). Mostra Expectativa 2008.

17:45 - Celia, A Rainha (Celia The Queen). Mostra Midnight Songs.

19:45 - Raquela, Uma Cinderela Com Algo a Mais (The Amazing Truth About Queen Raquela). Mostra Mundo Gay.

21:45 - Combinação Selvagem: Um retrato de Arthur Russell (Wild Combination: A Portrait of Arthur Russell). Mostra Midnight Songs.

* Dia 16

Estação Botafogo 1

14:00 - A Doce Vida Africana (Dolce Vita Africana). 59 min. Mostra Dox.

15:45 - Gilbert & George - artista duplo (With Gilbert & George). Mostra Foco Reino Unido.

18:00 - Mataram a Irmã Dorothy (They killed Sister Dorothy). Mostra Dox.

20:00 - Africa Unite (Africa Unite). Mostra Midnight Songs.

22:00 - Chris & Don. Uma história de amor (Chris & Don. A Love Story). Mostra Mundo Gay.

Estação Botafogo 3

13:40 - Refugiados para sempre (Laji'oun mada el hayat). Mostra Limites e Fronteiras.

16:00 - Uma petição para Alá (Estesh-hadi Baraye Khoda). Mostra Expectativa 2008.

17:45 - Parto Orgásmico (Orgasmic Birth). Mostra Dox.

19:45 - Minha Mágica (My Magic). Mostra Panorama do Cinema Mundial.

21:45 - Confidencial (Secrecy). Mostra Dox.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Tango e tradição ("Café dos maestros")


Grandes nomes do tango se reuniram para um show organizado pelo músico e compositor de trilhas sonoras Gustavo Santaolalla. Os encontros e ensaios foram registrados por Miguel Kohan, que uniu ao material algumas entrevistas e produziu o documentário “Café dos maestros”. Na última segunda-feira o diretor debateu com os espectadores que assistiram à sessão das 19h no Espaço de Cinema.


 Do início das filmagens à edição final o projeto demorou 4 anos para ser concluído. A produção executiva ficou a cargo de Walter Salles. “Foi uma tarefa épica fazer a edição. Tínhamos mais de 300 horas gravadas”, contou Kohan. Também houve um cuidado especial com a captação do som direto. “Foi uma tarefa difícil. A música era tão contagiante nos ensaios quanto o que acontecia quando eles paravam, não havia descanso. Trabalhamos com duas câmeras e dois técnicos de som”, explicou.


 A platéia sai da sala de exibição com o tango ainda ecoando nos ouvidos, já que os cerca de 25 minutos finais do filme são dedicados à apresentação no Teatro Colón. Kohan terminou agora de editar uma versão do show que fará parte dos extras do DVD do documentário.


 “Café dos maestros” tenta recuperar o valor da música argentina como expressão cultural. “Minha geração, na década de 70, não gostava do tango. Associávamos a uma idéia de conservadorismo da ditadura. Acho que esse foi um reencontro com a nossa identidade. Foi uma conseqüência da crise de 2001, o lado positivo”, concluiu o diretor.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Renascendo após a tragédia ("O renascimento")

Masahiro Kobayashi recebeu nesse Festival uma homenagem concedida a poucos: 5 de seus filmes, produzidos em anos diferentes, estão sendo exibidos (todos na mostra 100 anos de imigração japonesa). O mais recente, dirigido e protagonizado por ele, é "O renascimento", em cartaz só até hoje (no Estação Vivo Gávea, às 14:00 e às 19:00). O filme ganhou o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno no ano passado.

No longa, após o assassinato de uma adolescente por sua colega de classe em Tóquio, o pai daquela e a mãe desta estão arrasados pela dor, sem entender as razões para o que aconteceu. Coincidentemente, no ano seguinte, eles se encontram em Hokkaido. Na província, ambos têm uma rotina repetitiva e silenciosa, ele trabalhando em uma usina e ela, na cozinha da pensão em que ele vive. Quase não há diálogos e música durante o filme e o diretor procurou enfatizar a idéia da repetição do cotidiano dos personagens.

"Eu comia 20 ovos por dia", disse Kobayashi após a exibição da noite de ontem, quando o diretor conversou com os espectadores de "O renascimento" no Espaço de Cinema. Seu comentário buscou esclarecer a curiosidade do público sobre as várias cenas em que ele aparece comendo ovos crus com arroz no filme. Segundo ele, os personagens se comunicam, ainda que não-verbalmente. Assim como na música folk (antes de trabalhar com cinema, ele era cantor), em que o refrão se repete bastante, ele destacou a questão da repetição no tempo. Como dirigir um ator em um roteiro em que não há quase texto, ele mesmo decidiu interpretar um dos papéis principais.

A história foi inspirada num conto tradicional japonês, que fala sobre um amor proibido. Para trazê-lo aos tempos atuais, ele começou a imaginar o que seria um tabu nos dias de hoje e juntou a uma notícia que leu no jornal. O diretor também contou ao público que havia acabado de receber a notícia de que Ken Ogata, que participou de alguns de seus filmes (como "Homem andando na neve") e que ele considera um de seus mestres no cinema, havia falecido.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

"O pequeno traidor" na Mostra Geração



Por Laura Caldas

A Mostra Geração é o segmento infanto-juvenil do Festival do Rio. Entre outras atividades da mostra acontece o Programa Internacional. É dentro dele que são exibidas produções recentes de várias partes do mundo. Muitas delas premiadas em festivais. Esse ano a seleção incluiu países como Espanha, Suécia, Irã, Índia, Dinamarca e Japão.

Mas o destaque dessa semana está em uma co-produção entre Estados Unidos e Israel. Trata-se do filme "O Pequeno Traidor" ("The Little Traitor"), da diretora Lynn Roth. As filmagens se passam na Palestina de 1947, meses antes da criação do Estado de Israel, durante a ocupação do exército britânico.

Profy (interpretado por Ido Port) é um jovem garoto, insatisfeito com a situação de sua terra e decidido a intervir nos rumos desta "invasão" britânica. O menino passa seus dias com dois amigos, pensando em estratégias para afastar os inimigos. Mas um encontro pode mudar os rumos dessa história. Num fim de tarde, durante o toque de recolher, Profy conhece o Sargento Dunlop (interpretado pelo fantástico e consagrado Alfred Molina). O que poderia ser um grande transtorno se transforma numa bela amizade e isso trará muitos problemas a Profy, que passa a ser visto como um traidor.

O longa-metragem de 2007 é baseado na obra "Pantera no Porão", do famoso escritor israelense Amos Oz. Uma ótima chance de se pensar nas relações humanas que surgem dentro de conflitos e guerras, "O Pequeno Traidor" ainda passa amanhã, às 14h45, na sala 1 do Espaço de Cinema (Rua Voluntários da Pátria, nº 35, botafogo). A sessão será dublada ao vivo para os pequenos espectadores.

domingo, 5 de outubro de 2008

Sem refúgio para a alma

Na última sexta-feira, Nick Gogan e Paul Rowley conversaram com a platéia que assistiu a seu documentário “Vista para o mar" no Espaço de Cinema 3. Eles também responderam a algumas perguntas feitas especialmente pelo Notícias do Front. Contaram o que viram durante os 4 anos em que trabalharam no campo de refugiados irlandês de Mosney e como planejaram a estética que realça a vazio interior das pessoas que buscam asilo.

Paul Rowley, Vik - aqui da coord. internacional - e Nick Gogan


Espectador: Como vocês escolheram os personagens, ou foram eles que escolheram vocês?

Paul: Nosso trabalho começou com workshops de vídeo para os adolescentes. As pessoas com quem trabalhávamos foram nos recomendando outras. Ficamos um bom tempo na colônia, um total de 4 anos, fomos conhecendo as pessoas. E quando estávamos com a câmera algumas vinham naturalmente para contar histórias.


E: Por que vocês escolheram o melhor campo de refugiados da Irlanda?

Nick: Primeiro pensamos em fazer um filme sobre os campos da Irlanda como um todo, mas o interessante de Mosney é que é um ponto de referência. Quase todos os irlandeses já estiveram lá em algum momento da vida, na época em que era uma colônia de férias recebia quase 4 mil pessoas por dia. Outra coisa foi a fato de receber famílias, alguns outros só recebem adultos. Queríamos ter contato com as crianças e com as sensações das famílias.

Paul: Além disso, nós só descobrimos que é considerado o melhor campo de refugiados da Irlanda no final das filmagens, ficamos chocados.


E: Vocês mostraram o filme para o governo, para as autoridades que podem fazer alguma mudança?

P: Praticamente todos já viram o filme, os administradores do campo, e claro, as pessoas que aparecem nele. Enviamos cópias para o Governo e o Departamento de Justiça, mas nunca recebemos resposta. Agora grupos que trabalham com refugiados têm trabalhado com o filme, e ele tem sido exibido em universidades.


Notícias do Front: Existia uma integração cultural, ou as pessoas tendem a se dividirem em guetos de acordo com seus países de origem?

N: Isso varia muito. Algumas pessoas são bem ativas, formam grupos de mulheres, anti-racismo, já outras têm medo, se isolam.

P: É como diz uma das personagens do filme: você fica em seu quarto, vê televisão, sai para comer, volta, e no dia seguinte é a mesma coisa. Essa é a experiência padrão do lugar. Além disso, muita gente que chega lá não fala inglês, não tem como se comunicar, fora isso há um enorme medo, as pessoas passaram por experiências muito traumática.


NF: Vimos no filme que as crianças têm aulas. E os adultos, eles recebem alguma educação, como curso de inglês ou profissionalizante?

P:As crianças têm aulas, o que é ótimo, mas os adultos não.


NF: Como vocês planejaram a estética filme, foi algo pensado anteriormente ou depois de conhecerem o espaço?

P:Com a visita ao campo. Uma vez que fomos lá pensamos nisso, sabíamos disso, foi como uma resposta imediata ao lugar. Sabíamos como mover a câmera por aquele campo bizarro.


NF: O lugar estimulou o visual?

P:Exatamente. E outra coisa é que nós inicialmente queríamos fazer uma ficção. E nessa época conversamos sobre como a câmera deveria se mexer, algumas soluções visuais, e depois percebemos que tudo que pensamos anteriormente cabia perfeitamente aqui (no documentário).


NF: Vocês disseram que trabalharam lá por 4 anos...

P: Sim, mas não o tempo inteiro. Íamos e voltávamos, ficávamos por um mês ou dois, trazíamos as filmagens de volta e trabalhávamos nelas. Quando voltávamos as coisas tinham mudado, algumas pessoas tinham ido embora, outra chegavam.


NF: Quando começaram os workshops com as crianças?

P: Desde o princípio. Chegamos ao campo em uma tarde e na seguinte começamos os workshops. Os organizadores do campo não queriam que a gente simplesmente entrasse lá e filmasse, eles queriam que houvesse uma troca. Essa colaboração também foi importante para a gente.


NF: Como os refugiados chegam ao campo?

P: De diferentes maneiras. Alguns, como uma das histórias do filme, chegam de barco. Muitos chegam ao aeroporto e pedem asilo. E assim começa o processo, as entrevistas...


NF: Vocês presenciaram algum tipo preconceito ou conflito cultural entre os refugiados?

N:Não, acho que outros campos são mais violentos, Mosney é familiar.

P:As pessoas estão muito assustadas. Elas também estão preocupadas com seus processos de asilo.  Existe um medo de se comportar mal, eles querem ter o melhor comportamento possível, se houver alguma confusão os administradores do campo saberão. Todos são muito cuidadosos.


 NF: Uma curiosidade, vocês estiveram em Mosney antes de se tornar um campo de refugiados?

 P: Sim, quando era uma colônia de férias, quando eu éramos crianças. Era muito comum as pessoas irem para lá. Era o lugar número um para se ir nas férias

sábado, 4 de outubro de 2008

Os fronts daqui e de lá ( "Feridas" e "O veneno e o antídoto: uma visão da violência na Colômbia")

 
Quem foi ontem ao debate "Uma Saída à vista: paz e guerra na Colômbia e no Brasil", no Pavilhão do Festival, teve a chance de conversar sobre a criminalidade nesses países e a produção de dois filmes sobre os conflitos na Colômbia (o longa de ficção "Feridas" e o documentário "O veneno e o antídoto: uma visão da violência na Colômbia"). Além do pessoal que mencionamos aqui, também faziam parte da mesa Alfredo Sabbagh (produtor de "Feridas", cuja última exibição é hoje no Estação Vivo Gávea, às 20:00) e Pedro Strozemberg (secretário executivo do Instituto de Estudos da Religião e mediador do debate).

"Esse filme não tenta ser uma verdade, mas ajudar junto a outras experiências, a entender um pouco o que está acontecendo lá. Não sei como se pode chegar a um nível de irracionalidade, barbárie e demência tão grande. O mundo está se polarizando muito e a Colômbia está muito polarizada, há poucas vozes de razão. Era um país em perpétua negação, como se nada estivesse acontecendo. Há uma situação muito complicada atualmente, muito incendiária", disse o diretor Roberto Flores sobre "Feridas".

Damian Platt também falou sobre a tendência que os países em conflito apresentam de negar ou ignorar o que acontece com sua população, citando o exemplo da Irlanda do Norte. "Um inglês que não conhece Belfast, um colombiano de Bogotá que não conhece a zona rural ou um carioca que não conhece o Complexo do Alemão é tudo a mesma coisa para mim", disse.

"Apesar de, nesses últimos anos, o governo ter mostrado estatísticas de base real em que os indicadores de segurança não refletem o que o interior colombiano está vivendo. O filme busca uma postura que não seja de direita ou esquerda, mas a da sociedade civil que está no centro de um conflito", disse Alfredo Sabbagh. 

Para Estevão Ciavatta, "é muito bacana ter feito esse filme (sobre 'O veneno e o antídoto: uma visão da violência na Colômbia'), porque é interessante ver a reação dos colombianos (eu tenho muito medo de estar falando de outro país) e como os brasileiros estão interessados na Colômbia. Há 10 anos, a gente tinha muito medo de virar a Colômbia e, hoje, a gente quer ser como a Colômbia, pelo menos como Bogotá e Medellín, que conseguiram aplacar, de alguma maneira, a sua violência. A Colômbia não é só Bogotá e Medellín, existe uma luta muito cruel, uma barra pesadíssima. Já fechamos uma parceria para fazer um filme nesse mesmo espírito sobre o Brasil, que a gente deve filmar no ano que vem".

Já Rodrigo Pimentel abordou com mais ênfase a situação dos índices de criminalidade no Brasil, criticando as rivalidades político-partidárias como um ponto negativo para a solução do problema. Ele falou também da violência promovida pela própria polícia militar e com apoio da sociedade: "Em setembro do ano passado, no complexo do Alemão, a polícia militar, num único dia, matou 26 pessoas em uma operação, todos os mortos sem camisa (o que, segundo ele, é um indício de que foram execuções). O IBOPE fez uma pesquisa e 91% dos cariocas aplaudiram essa operação. A idéia é de que, no Rio de Janeiro e talvez no Brasil, as pessoas estão aplaudindo essa cultura de morte". Ele mencionou ainda o avanço da violência policial nos bairros de classes média e alta e criticou a política de segurança pública de enfrentamento.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O frescor de um Ferragosto

Não é difícil entender porque “Almoço em agosto” rendeu para Gianni Di Gregorio o prêmio de Melhor Diretor Estreante no Festival de Veneza 2008. A leveza e o frescor com que ele conta a história de um feriado inusitado revelam uma intimidade com a câmera e com o público característica de quem já sabe bem o que faz.


Interpretado pelo próprio diretor, um homem de meia-idade, que ainda mora com a mãe, se vê obrigado a receber mais três senhoras para o feriado de 15 de agosto. Ao ver sua casa transformada em uma espécie de asilo, ele tenta se virar como babá de suas hóspedes.


A simplicidade do argumento desdobra-se em um roteiro enxuto e inteligente, que – sem esforço – dá lugar ao cômico em seguidas situações inusitadas. O protagonista as encara com uma resignação tal que é quase impossível não simpatizar com sua forma doce de levar a vida, sempre com uma taça de vinho na mão e a expressão de quem vê a vida passar sem exaltação.


Gianni é ainda roteirista do filme Gomorra - de Matteo Garrone -, também em exibição no Festival.

Armas pela liberdade

“Uma guerrilheira curda”, de Annegriet Wietsma, oferece uma janela para o dilema do povo curdo através da luta de uma guerrilheira presa na Holanda. Nuriye Kesbir (ou Sozdar, codinome que significa "aquela que cumpre sua promessa") conta os motivos que a levaram à liderança do PKK, movimento de resistência curdo, e expõe sua revolta contra a falta de liberdade das mulheres que ainda persiste nas famílias de seu país.


O filme acompanha sua libertação e revela seu desejo de retornar à guerrilha. O conforto do exílio – ainda que sob os olhos impiedosos do governo holandês – é confrontado à dor de Nuriye ao pensar em seu povo, oprimido pelo exército turco e ignorado pela opinião pública mundial.


Planos que se demoram no olhar perdido da guerrilheira nos fazem sentir de perto a angústia do afastamento. Fica claro que Sozdar só se sentirá em casa ao voltar à sua terra. A câmera de Wietsma parece, a todo o momento, à espera de sua fuga.


Enfim, o retorno da guerrilheira às montanhas nos leva a um lugar de alegria e celebração. É interessante notar a oposição entre o ar pesado dos apartamentos holandeses em que ela se escondia e o clima de festa dominante no acampamento da guerrilha. É lá – com armas em punho e companheiros de luta ao lado – que Sozdar reencontra sua liberdade.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Câmeras contra a homofobia ("De repente, no inverno passado")

Para fazer “De repente, no inverno passado” o casal gay Gustav Hofer e Luca Ragazzi resolveu empunhar uma câmera e questionar a homofobia. Eles se viraram personagens do próprio filme quando no ano passado o governo italiano botou em pauta uma lei que reconheceria os direitos civis da união homossexual. O projeto gerou manifestações conservadoras, principalmente vinculadas ao Vaticano.

Juntos há 8 anos, os dois quiseram compreender o que pensam exatamente aqueles que condenam seu amor. Ouviram ainda quem apoiava sua causa. Eles foram a manifestações, ao Senado e às ruas confrontar idéias. Escutaram palavras de apoio, críticas e declarações duras. O filme intercala suas próprias opiniões às das outras pessoas, já que o casal também aparece em pequenas situações cotidianas e discute a questão com atenção e até mesmo humor. O documentário recebeu menção especial na mostra Panorama do Festival de Berlim 2008.

Hofer e Ragazzi estão no Rio e falarão sobre a experiência do filme e o assunto os levou a fazê-lo, o casamento gay. A conversa acontece amanhã depois da exibição de “De repente, no inverno passado” às 18:30h no Centro Cultural da Justiça Federal.

Profissão: mafioso

Quem não conferiu a estréia de “Paraíso perdido” – primeiro longa-metragem dos diretores italianos Davide Barletti e Lorenzo Conte –, ainda tem duas oportunidades: hoje, no Estação Vivo Gávea, e segunda-feira, no Estação Barra Point. O filme é baseado no livro de Antonio Perrone, que conta a história de sua ascensão ao comando da Quarta Máfia italiana e sua condenação a 49 anos de isolamento.


Os diretores usam o caminho traçado por Perrone – guiado pelo sonho de uma vida melhor – para narrar o nascimento do grupo e, sobretudo, seu impacto sobre a região italiana de Apulia nos anos 80. Sob o domínio do poder exercido pela máfia, essa área conviveu com o medo da violência e das constantes pilhagens a que era submetida.


Barletti diz ter sido inspirado pelo modo intenso como o livro situa a história em uma terra violada, que começava a experimentar a crueldade irracional. Para ele, esse é um filme necessário, capaz de expor um período duro da história de seu país ignorado pela justiça.

Além disso, o diretor destaca a necessidade de se mostrar a máfia como ela é. Segundo ele, o cinema ainda guarda um forte imaginário que liga a figura do mafioso à de Don Corleone. É a mesma "estetização da violência" - come ele chama - que volta e meia irrompe no cinema brasileiro quando este resolve abordar nossas favelas.

Um incômodo refúgio ("Vista para o mar")


Em 1948, próximo a Dublin e ao lado do mar, foi criado um acampamento de férias chamado Mosney. Hoje, esse é um local administrado pelo governo irlandês para acolher gente do mundo todo em busca de asilo. Às vezes durante anos, essas pessoas ficam sem notícias de seus familiares ou da conclusão dos processos pelos quais solicitam exílio. Apesar de toda uma infra-estrutura de entretenimento e bem-estar, os refugiados vivem uma realidade incerta e sufocante. 

"Vista para o mar", dirigido por Nicky Gogan e Paul Rowley, está na mostra Limites e Fronteiras e mostra o dia-a-dia de Mosney. O filme foi exibido nos últimos festivais de Berlim e São Paulo. Os diretores, que trabalharam dando aulas de arte para as crianças de lá, vão estar na exibição do documentário amanhã (dia 03), às 20:15, no Espaço de Cinema.

Além de abordar a convivência entre culturas tão diferentes umas das outras, as lembranças traumáticas e a esperança de um futuro seguro, o filme fala sobre o incômodo de ser um outsider e estar longe da terra natal.

Paralelos entre Brasil e Colômbia em debate

Esse ano a programação da Premiere Latina traz dois filmes sobre um tema muito em voga na mídia: a violência urbana na Colômbia. Feridas, de Roberto Flores, é uma ficção sobre o cativeiro na guerrilha e os massacres paramilitares; O Veneno e o Antídoto é um documentário brasileiro, feito em parceria com o Grupo Cultural AfroReggae, sobre a experiência colombiana, que passou de epicentro de violência a exemplo de política de segurança pública bem sucedida.

Os diretores Roberto Flores e Estevão Ciavatta se reúnem no debate "Uma Saída à vista: paz e guerra na Colômbia e no Brasil". O encontro servirá para conversar sobre a experiência de filmar essa realidade e tentar traçar pontes entre os dois países que, mais do que nunca, têm muito a aprender um com o outro.

Mesa:

Roberto Flores, diretor colombiano
Estevão Ciavatta, diretor brasileiro
Damian Platt, Coord. Parcerias Internacionais do AfroReggae
Rodrigo Pimentel, autor do livro A Elite da Tropa

Local: Pavilhão do Festival do Rio
Rua Barão de Tefé, 75
Gamboa
Data: 3 de outubro, às 16h

A entrada é livre. O debate será precedido pela exibição dos trailers dos filmes

As exibições do filme Feridas hoje, dia 02/10, no Espaço de Cinema 1 às 17:15h e às 21:30h terão a presença do diretor Roberto Flores.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Bate-papo com o diretor Samir Abdallah

O Notícias do Front conversou na tarde de hoje com o diretor Samir Abdallah. Como dissemos ontem, ele está no Festival com o filme “Depois da guerra, a guerra continua”. Abdallah falou sobre as filmagens, política e a importância do ponto de vista do diretor para o documentário.


Abdallah após sessão na Caixa Cultural

Notícias do Front: Você vive na França desde sua infância. Como você se interessou por questões que estão tão longe da realidade européia?

Samir Abdallah: Em primeiro lugar, aquela é a região da minha família e minha também. Em segundo lugar, essa guerra no Líbano, em 2006, teve efeito sobre todas as pessoas do mundo. Por exemplo, na França, nessa época, os conflitos na Palestina e no Líbano tiveram influência direta. Há importantes comunidades árabes e judaicas em confronto lá. As duas guerras foram instrumentalizadas pelo lobby pró-israelita da França e de outros países. Na França, temos algo diferente do que acontece no Brasil: lá, estamos muito mais ligados às nossas origens. Isso acontece porque temos um passado como potência colonial que ainda influencia muito o presente. O problema é que as instituições e os políticos franceses ainda não resolveram os problemas coloniais, então os efeitos desses conflitos têm um impacto grande na Europa. Além disso, vivemos em um mundo globalizado, onde tudo está conectado.

NF: Você acha que as pessoas que vêem seu filme sentem essa conexão?

SA: Não necessariamente, porque eu não falo explicitamente dessa relação no filme. Mas é possível, já que eu mostro jornalistas que estão preparando um jornal e pensando nos motivos e desenlaces da guerra. Mas em um filme não se fala tudo, é preciso que as pessoas pensem e completem as informações por conta própria.

NF: Como você e os jornalistas do filme perceberam o que era preciso mostrar da guerra?

SA: O objetivo do jornal criado por esses jornalistas era abrir um espaço para uma visão crítica da situação no Líbano e na região árabe durante a ocupação. Ele representa uma resposta, uma resistência por meio da informação. Era um jornal diário cuja idéia era analisar como as coisas estavam no momento e como poderiam ficar. Como diretor do filme, eu me concentrei no espírito desses jornalistas e em como o jornal se formava nessa situação. Eu tinha que fazer uma história com isso, eu precisava fazer meus personagens a contarem. Por isso, em cada momento estamos mais próximos de cada um deles. A dificuldade em um filme sobre a criação de um jornal como esse é que não podíamos ficar só dentro do jornal, tínhamos que mostrar as circunstâncias em que ele era criado, tínhamos que mostrar o que se passava lá fora.

NF: Por que você decidiu não usar um narrador para o filme? Isso foi intencional?

SA: Porque eu detesto isso. Como diretor, eu não comento, mas estou presente o tempo todo. Estou presente na maneira como filmo e como conto a história. Acho que o espectador compreende que ele está seguindo uma história guiado pelo diretor. É como um diário de bordo. Eu não quero, com isso, dizer que um documentário nunca pode ter um narrador, mas a diferença entre um documentário e um programa de notícias para a TV é que no primeiro você não precisa repetir de várias maneiras distintas a mesma coisa. Além disso, já há diferentes vozes e visões no filme.

NF: Vemos muitos diretores, hoje em dia, com medo de usar um narrador que pareça impor uma verdade...

SA: Todos têm sua verdade, seu ponto de vista. O diretor precisa mostrar o seu. Mas acho que estamos mais sugerindo, deixando o público descobrir certas coisas por conta própria, do que impondo algo. Mas isso não quer dizer que eu não deva expressar meu ponto de vista. Muitas pessoas dizem que meu filme não é objetivo, que eu não ouço os dois lados etc. Em primeiro lugar, eu não posso estar em Beirute e em Tel Aviv ao mesmo tempo e, em segundo lugar, eu preciso escolher em que me basearei. É uma questão de escolher o que quero dizer. Eu vou lá porque estou envolvido com a história. Se alguém não está satisfeito como meu ponto de vista, que mostre outro. A grande mídia sempre tem a mesma maneira de contar histórias, não há interesse em mostrar a visão daqueles que são marginalizados pela sociedade. Quando você vem com um ponto de vista distinto, é chamado de terrorista e reclamam da sua falta de objetividade. Como disse Godard, objetividade é cinco minutos para os judeus e cinco minutos para os nazistas.

NF: Como era a questão da segurança quando você estava no Líbano?

SA: Durante a guerra, eu estava em Beirute. Podia acontecer alguma coisa, mas havia relativa segurança no dia-a-dia. Depois da guerra, quando eu estava indo para o sul, isso já foi um problema maior. Depois que eu voltei, percebi que, em certos momentos, eu havia sido meio louco. Íamos a certas áreas em que realmente não havia segurança, principalmente por causa das bombas. Mas o que acontece é que quando você vê através da câmera, sua mente está ocupada com a imagem que está capturando. Você vê o mundo de modo distinto, o medo vem depois. Mas não sou nenhum kamikaze, eu estava com amigos e havia um especialista em minas terrestres também. Num momento do filme em que eu estava filmando uma caixa com várias bombas, ele me disse: “cuidado para não deixar a câmera cair aí, senão vamos ser todos explodidos”. Rapidamente, tratei de dar um passo para trás.

NF: Qual você acha que é a reação por parte de pessoas de fora da comunidade árabe à divulgação do conflito?

SA: Na Europa, o problema é que quando a imprensa fala do conflito, mostra empatia com o lado israelense e, para o lado árabe, há apenas estatísticas. A imagem é a de que só existe o terrorismo de um lado e o exército anti-terrorista do outro. No Brasil, eu tive uma boa impressão de como os brasileiros vêem o conflito. Me parece que o preconceito com a comunidade árabe é menor aqui que na Europa.

Confusão mental ("A mulher sem cabeça")

O clima enigmático de "A mulher sem cabeça" joga o espectador no caldeirão sensorial de confusão e ansiedade de sua personagem principal. O filme da diretora e roteirista argentina Lucrecia Martel expõe as dúvidas e conflitos que assombram uma mulher depois que ela atropela algo em uma estrada e foge em seguida.

A obra de Lucrecia se destaca dentro da atual produção cinematográfica argentina. Ela trata de temas intimistas e fortes, como a culpa, e usa o som com grande propriedade. Seus dois longas anteriores, "O Pântano" e "Menina Santa", foram elogiados pela crítica mundial. "A mulher sem cabeça" fez parte da mostra competitiva do Festival de Cannes desse ano.

Os excêntricos Gilbert e George


Estréia hoje o documentário “Gilbert & George – artista duplo”, do diretor inglês Julian Cole. Famosa por suas esculturas vivas, a dupla Gilbert Prousch e George Passmore consolidou uma das carreiras mais interessantes da arte contemporânea mundial. Seu trabalho foi iniciado na década de 60 – quando os dois se conheceram na escola de arte – e já rendeu exposições de sucesso em diversos pontos do globo.


O filme é resultado de uma convivência do diretor com os artistas por mais de 15 anos. Após posar para um de seus quadros, em 1986, Cole decidiu registrar o desenvolvimento da carreira da dupla. O resultado é um longa-metragem de 104 minutos que reúne depoimentos dos artistas e curadores de arte e acompanha a saga de suas exposições mundo afora.


O diretor não esconde seu fascínio pela dupla e tenta mostrar – por trás de sua imagem enigmática e polêmica – os indivíduos Gilbert e George, que, como o título sugere, sempre preferiram ser vistos como um único artista. Não é tarefa fácil, portanto, entendê-los separadamente. Cole tenta ir além dos mitos que os cercam para compreender sua vida e sua arte.


Outro filme dirigido por Cole que será exibido no Festival é Ostia (1991), no qual Derek Jarman interpreta o cineasta Pasolini. Vale a pena conferir e comparar as duas obras.


Um turbilhão revolucionário ("Lucio: anarquista, falsificador e ladrilheiro")

 
Hoje, quem vê o senhor de quase 80 anos caminhando calmamente pelas ruas de Paris nem imagina a agitação de outros tempos de sua vida, em que foi chamado de "o bom bandido" e "Zorro basco" pela imprensa. Enquanto o espanhol Lucio Urtubia sustentava um prosaico emprego na construção civil, participava de assaltos a banco, falsificava documentos e títulos bancários, forjava passaportes para exilados e financiava desde a Revolução Cubana ao movimento contra a ditadura franquista. Se você pensou que essa história criminosa terminou em décadas de cadeia, errou: ele passou apenas alguns meses preso em toda a sua vida.

O documentário "Lucio: anarquista, falsificador e ladrilheiro", de Aitor Arregi e Jose Mari Goenaga, é parte da mostra Dox e foi indicado ao prêmio Goya 2008 de melhor documentário, além de ter participado do festival canadense Doxa, do Festival de San Sebastian e de ter recebido menção especial no Festival de Guadalajara.

Além de exibir depoimentos do próprio Lucio, de sua família, seus amigos, de banqueiros, advogados e refugiados, o filme conta com reconstituições e documentos de arquivos pessoais e públicos para mostrar a impressionante história desse personagem.

Uma família acidental e o Palácio de Versalhes ("Versalhes")


A história parece igual à de tantos outros filmes: uma criança desprotegida encontra, numa situação improvável, um adulto que se torna alguém entre seu pai e seu amigo. "Versalhes", dirigido pelo francês Pierre Schöeller, entretanto, vai muito além do que aparenta ser. A produção, parte da mostra Expectativa, participou da seleção oficial “Un Certain Regard” do Festival de Cannes e venceu o prêmio BE TV de melhor filme no Festival de Bruxelas desse ano.

No filme, o miserável Damien (Guillaume Dépardieu, filho de você sabe quem), depois de passar uma noite com Nina, descobre que ela foi embora deixando para trás Enzo, de 5 anos. Guillaume, ganhador do prêmio César de melhor jovem esperança masculina em 1996, é um ator tão ambíguo e intenso quanto o ermitão contemporâneo que interpreta.

Chega a ser irônica a seqüência em que Enzo – sujo, abandonado e maltrapilho – caminha pelo suntuoso Palácio de Versalhes, escancarando a existência rude e errante dos que, por alguma razão, foram empurrados para a margem de uma sociedade aparentemente equilibrada.Luxo e miséria, inocência e crueldade, doçura e aspereza, superfície e profundidade, são muitos os contrastes presentes em "Versalhes".

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Para quê movimento?

Um dos filmes mais esteticamente audaciosos do Festival é, sem dúvida, “Ano unha”, primeiro longa-metragem de Jonás Cuarón. O sobrenome e o talento foram herdados de Alfonso Cuarón, diretor de “E sua mãe também” e “Filhos da esperança”. “Ano unha” foi exibido no Festival de Veneza e conquistou o Prêmio de Contribuição Artística no Festival de Tessalônica 2007.

Sua audácia está no abandono de um dos princípios básicos do cinema: o movimento. Após um ano tirando inúmeras fotos de pessoas próximas, Jonás separou-as por cenas fictícias e, a partir delas, construiu uma narrativa. Desse modo, quebrou o protocolo mais uma vez ao criar a história a partir de imagens já capturadas e não o contrário.

Ao final desse ano, a maioria das fotografias que tinha em mãos era de sua namorada americana e de seu irmão. Daí adveio a história do amor impossível entre um garoto mexicano de 13 anos e uma americana de 24.

A idéia surgiu depois que o diretor assistiu a “La jetée”, curta-metragem de Chris Marker, que também se arrisca pela montagem de fotos para a construção de uma narrativa. No entanto, Jonás consegue levar seu filme a um outro nível. Ao começar a tirar suas fotos – e já com a idéia do que queria na cabeça – ele visava a um formato que não parecesse experimental e que pudesse se desenvolver de maneira agradável.

Nos primeiros cinco minutos de filme, esse objetivo parece se frustrar e muitos espectadores se assustam com a idéia de ter que passar 80 minutos vendo fotos e ouvindo a dublagem. Depois de pouco tempo, no entanto – como o próprio diretor relata – nos esquecemos de que vemos fotografias e apenas nos interessamos pelos caminhos que toma a história.

Notícias do Líbano ("Depois da guerra, a guerra continua")

O documentarista Samir Abdallah acompanhou um grupo de jornalistas libaneses que realizava uma reportagem sobre o uso de bombas de fragmentação no conflito entre Líbano e Israel em 2006. Esse tipo de armamento se parte quando é lançado liberando vários explosivos menores que atingem grandes distâncias. O material produzido por Abdallah rendeu o longa-metragem "Depois da guerra, a guerra continua". Ele estará presente hoje na sessão do filme na Sala 2 da Caixa Cultural, às 19:15h.


No dia 12 de julho de 2006, o partido extremista libanês Hezbollah atacou Israel ao lançar mísseis sobre o país matando oito soldados e fazendo mais dois como reféns. O governo israelense respondeu enviando tropas de ocupação ao Líbano. A guerra durou 33 dias e deixou cerca de 1.200 mortos


Abdallah aborda em seu filme o sofrimento do povo do sul do Líbano que tenta seguir em frente depois de ver cidades inteiras serem destruídas. Ele tem 49 anos e é um dos coordenadores da rede de cinema de resistência Cinesoumoud desde 1994. Filho de uma dinamarquesa e um egípcio, nasceu em Copenhague, mas vive na França desde os 6 anos.

O pesadelo americano ("Minha vida dentro")


Em 1999, Rosa Jiménez (na época, com 17 anos) era mais uma entre os milhares de mexicanos que cruzam ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos, em busca de trabalho e melhores condições de vida. Passou a viver no Texas, onde conheceu seu marido e começou uma família. Apesar de ainda não falar nada de inglês e sobreviver modestamente, a vida parecia melhor do que em seu país natal. Em janeiro de 2003, porém, Rosa foi presa pelo suposto assassinato do bebê de quem tomava conta como babá e começou o pesadelo.

"Minha vida dentro", de Lucía Gajá, faz parte da mostra Doc Latino e foi premiado nos festivais internacionais de Madri e Morelia e no Festival Latino-americano de Lima. O documentário mostra a história de Rosa (que entrou grávida e deu à luz seu segundo filho na penitenciária), de sua família, de profissionais que prestam assistência aos imigrantes e de outros mexicanos que emigraram para os Estados Unidos esperando encontrar uma situação mais convidativa e se tornaram uma espécie de subcasta. Milhares deles são vítimas de preconceito, indigência e empregos informais mal-remunerados.

Durante o julgamento de Rosa, que foi inteiramente filmado pela equipe, é bem claro o senso comum entre os americanos sobre os chicanos. Em um certo momento, a defensora do Estado diz  que "apesar de ser do México, ela é uma mulher inteligente". Será que vale mesmo a pena embarcar numa aventura arriscada como essa?

Direitos civis, jazz e o furacão Katrina ("A história desconhecida de New Orleans")


Faubourg Tremé, em New Orleans, é considerado o primeiro bairro negro dos Estados Unidos e o berço do movimento pelos direitos civis para a população afro-americana. Dawn Logsdon e Lolis Eric Elie, que nasceram na cidade, decidiram começar uma pesquisa sobre a cultura e a História do distrito para fazer um documentário. Quando o projeto já chegava perto de ser concluído, o furacão Katrina devastou o local e virou a vida da comunidade de cabeça para baixo.

Inacreditavelmente, o material produzido até então foi salvo, modificado após os trágicos acontecimentos e deu origem a "A história desconhecida de New Orleans", da mostra Dox. O filme será exibido dia 02, às 18:30, no Centro Cultural da Justiça Federal. Quem estará lá é Lolis Eric Elie, que produziu e co-dirigiu a produção, além de ser seu roteirista.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A Violência como forma de censura ("Mataram a irmã Dorothy")


Amanhã, terça-feira, dia 30, depois da sessão do documentário "Mataram a irmã Doroty", às 18:30h no Centro Cultural da Justiça Federal, acontece o debate "Silenciando a Crítica: A execução como arma dos poderosos".


Participarão da discussão o diretor Daniel Junge, Irmã Julia, freira e companheira de trabalho de Dorothy Stang, Felício Pontes, promotor, Dom Flávio Giovenale , da CNBB, Paulo Adário, do Greenpeace Amazonas, e o narrador da versão brasileira do documentário, o ator Wagner Moura. Essa conversa com certeza ajudará a entender não só a trajetória da missionária, como um pedaço do Brasil aonde a lei nem sempre chega.

O assassinato de Dorothy Stang povoou os noticiários brasileiros em 2005 e reacendeu o foco sobre o massacre ambiental e o poder dos madeireiros ilegais no Pará. Nessa produção americana, Daniel Junge se aprofunda na história que comoveu o Brasil acompanhando os bastidores do julgamento dos assassinos da freira. Ele parte daí para entender os motivos do crime e conhecer melhor o trabalho e a vida de Dorothy

domingo, 28 de setembro de 2008

Paixão e salsa ("Celia, a rainha")

A cantora cubana de salsa Celia Cruz apaixonou fãs do mundo todo com sua voz poderosa, como ícone contra o racismo e o sexismo, e modelo de estilo e comportamento. O filme “Celia, a rainha” investiga as diversas facetas da diva através das opiniões de quem foi tocado por ela. São ouvidos de nomes importantes da música como Quincy Jones e David Byrne a desconhecidos.


Os diretores Joe Cardona e Mario de Varona cresceram ouvindo as músicas de Celia e com tempo perceberam que o impacto que ela causou era grande não apenas neles. Os cineastas encontraram apreciadores da cubana até no Japão. ”Percebendo a importância dela para as pessoas podemos ver o peso da sua marca, da sua pegada”, diz Cardona em um vídeo no site oficial do filme.


O documentário também reconta a história da cantora, que foi para os Estados Unidos em 1960 para fugir do regime de Fidel Castro e nunca mais pôde retornar à sua terra, e mostra o que de fato encantou tanta gente através de imagens de arquivo.

No ritmo de Lisandro Alonso

Lisandro Alonso já disse ter perdido a conta das vezes que lhe disseram que em seus filmes nada acontece. Sua resposta é simples: “Sim, acontece. Mas a velocidade é outra”. Outra, sem dúvida, em relação ao que nos acostumou o cinema de Hollywood, que, para ele, é – em grande parte – “apenas entretenimento”.


Exibido no Festival de Cannes 2008, “Liverpool” não foge ao ritmo valorizado por Alonso. Sua matéria-prima é, mais uma vez, o silêncio, que deve ser apreendido e preenchido pelo espectador. No porto de Ushuaia, Farrel deixa o navio em que trabalha para procurar sua família. Ao chegar, encontra uma mãe doente, um pai que não o quer e uma filha que nunca vira antes.


Tudo isso acontece com a câmera colada ao protagonista, que atua como um guia da narrativa. Os planos longos e movimentos panorâmicos da câmera nos dão a impressão de seguir menos as instruções do diretor que o lento caminhar de Farrel.


Esse cinema – definido muitas vezes como um elogio ao banal – é característico de grande parte da produção contemporânea. Em Lisandro Alonso, no entanto, ele encontra uma crueza única e instigante.

Dois meses para viver de novo

Amy Redford surpreendeu ao mostrar maturidade em seu primeiro filme, “A Guitarra” (2008). Selecionado para o Festival de Sundance 2008 – fundado por ninguém menos que o pai da diretora, o ator Robert Redford –, o longa mostra a transformação na vida da nova-iorquina Mel depois que ela é diagnosticada com uma doença terminal. Despedida de seu emprego sem-graça e deixada pelo namorado apático, ela resolve mergulhar de cabeça em seus desejos e paixões.


O roteiro foi baseado em uma história que Amy ouvira em uma cafeteria. Ela diz ter sentido um choque que a levou a pensar em como deixamos que os outros nos definam sem nossa permissão. A virada na história da personagem reflete o momento na vida da diretora em que ela própria “começara a sentir-se mais viva”. Segundo ela, “Uma vez que você acorda para isso, não há como voltar atrás”.


Essa espécie de revelação desencadeia uma reação em cadeia na vida da protagonista, que resolve usar o tempo que lhe resta para viver intensamente. Entre as paixões que resolve resgatar, está uma Fender Stratocaster de 1963, a guitarra vermelha que representa sua entrega aos sonhos antes reprimidos.


Amy diz ter sido difícil gritar “Ação!” no primeiro dia de filmagens. No entanto, ela parece ter se acostumado rapidamente à nova função. Contando com uma corajosa interpretação de Saffron Burrows, construiu um filme intenso e que desenha uma carreira merecedora de atenção.

Arte x loucura ("Homem Equilibrista")


O World Trade Center, em Nova York, tinha cerca mais de 400 metros de altura (uma das maiores construções do mundo) e simbolizava o poderio do mundo ociental, tanto que não foi à toa que o mesmo foi escolhido como alvo principal dos atentados de 11 de setembro de 2001. Dá vertigem só de imaginar.

Pelo jeito, não para todos. Em agosto de 1974, um jovem francês de 24 anos chamado Philippe Petit caminhou por cerca de uma hora entre as Torres Gêmeas, sob um cabo suspenso. Depois da façanha ilegal, foi preso e submetido a exames para avaliar sua sanidade mental.

"Homem Equilibrista", parte da mostra Foco Reino Unido e em cartaz apenas no dia 29, conta sobre a idéia, o planejamento (que durou mais de 6 anos), a execução prática e as conseqüências do ato (artístico ou insano?). O filme é baseado no livro "To reach the clouds" (na tradução literal, "Para alcançar as nuvens") de Petit.

Cadê meu pai? ("Traquinagens")


Nessa edição do Festival, um tema bastante freqüente nas exibições é a infância. Como as crianças vêem o mundo e lidam com suas experiências? Inocência, relações sociais, curiosidade e amadurecimento têm sido alguns dos enfoques dados a essa temática nos filmes. 

Um dos bons exemplos disso é o polonês "Traquinagens", dirigido por Andrzej Jakimowski. O filme mostra a busca de Stefek (um menino de 6 anos) por seu pai, que abandonou a família algum tempo antes para viver com outra mulher. Quando ele vê um homem na estação de trem local e tem certeza de que é seu pai, faz de tudo para se aproximar e tenta obter a ajuda da sua irmã Elka, de 18 anos, que nem quer ouvir falar do sujeito. A relação do menino de Stefek com Elka é um dos pontos principais da produção.

Antes de chegar ao Rio, o filme foi premiado em diversos festivais, como o Festival de Miami, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, O Festival de Tóquio e o Festival de Veneza de 2007. Aqui, ele é parte da mostra Expectativa e está em curtíssima temporada no Festival (só até amanhã), então aproveitem enquanto ainda dá tempo!

sábado, 27 de setembro de 2008

Panorama argentino ("Cordero de Dios")

Em seu primeiro longa-metragem, “Cordero de Dios”, a diretora argentina Lucía Cedrón aproveita sua experiência de vida para contar uma história que mistura trama policial e reflexão política. Ela e sua família exilaram-se em Paris em 1976, ano do golpe militar no país hermano. No filme um veterinário de 77 anos é seqüestrado e sua neta negocia com os bandidos o resgate, para ajudar nessa tarefa ela recorre à mãe, refugiada política desde a década de 70.

“Cordero de Dios” se passa em dois tempos diferentes da História, o seqüestro e seu desenrolar acontecem em 2002, em meio à crise econômica que assolou nosso país vizinho, e o ano de 1978, palco de memórias que surgem no reencontro de mãe e filha.

A partir da diferença de gerações dos personagens, Lucía Cedrón constrói um retrato da Argentina sem medo de buscar o que ficou escondido debaixo do tapete do tempo.

Trabalho e religião na Mostra Expectativa

Quando a hierarquia do ambiente de trabalho cruza os caminhos da fé religiosa, forma-se o ambiente ideal para o conflito. Em “O último reduto” (2008), de Rabah Ameur-Zaïmeche, o cotidiano de uma empresa de reparo de paletes é transformado quando o patrão Mao (sic) resolve eleger sozinho o líder espiritual de sua nova mesquita. Seus funcionários, também imigrantes muçulmanos, não aprovam a escolha.

Com esse enredo, o diretor cria um ambiente de disputa entre duas diferentes forças de imposição. O patrão estende seu poder à fé, quebrando o equilíbrio que assegurava sua posição. Esse episódio parece desenhar um caminho de violência contra a exploração do trabalho e a marginalização do imigrante.

Cabe destacar o modo interessante com o qual o diretor constrói seus cenários. As máquinas, hangares e pilhas de paletes tornam-se personagens do filme, formando um espaço inusitado, marcado por linhas retas e movimentos duros. Na contramão de seu último filme, “Povoado number one” (2006), Zaïmeche prioriza uma representação mais “comportada”, deixando de lado o improviso e os efeitos de luz e de câmera.

Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2008, o filme reforça o tema da imigração africana na França no trabalho de Zaïmeche. Em seu primeiro longa, “Wesh Wesh, o que foi?” (2001), o diretor usou o gueto parisiense como cenário de exclusão dos jovens imigrantes. Já em “Povoado number one”, voltou sua câmera para a Argélia, país de origem da maior parte dessa juventude, na qual ele próprio se inclui.

Chegado à França com apenas dois anos, Zaïmeche cresceu nos arredores de Paris e se formou em Ciências Sociais. Em 1999, criou a produtora Sarrazink e começou a escrever o roteiro de seu primeiro longa, com o qual receberia o Prêmio Louis Delluc e o Grande Prêmio do New Cinema Forum no Festival de Berlim. Seu filme seguinte conquistou o Prêmio da Juventude no Festival de Cannes 2006.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Parto: dor ou prazer? ("Parto orgásmico")


Pergunte a sua mãe, as suas avós, amigas e tias sobre como é o parto. A grande maioria delas provavelmente vai dizer que é a pior dor que uma mulher pode sentir e que essa história de "experiência anscestral" é tudo balela. O documentário "Parto orgásmico", dirigido pela americana Debra Pascali-Bonaro e parte da mostra Dox, pretende provar justamente o contrário: dar à luz pode trazer uma sensação semelhante ao êxtase de um orgasmo. Para isso, acompanha 7 famílias que estão para receber, em breve, mais um membro.

O filme também questiona o tratamento dado pelos hospitais e pela mídia à experiência, que seria o de encarar a mulher grávida como uma pessoa doente. Seriados como ER, que mostram grávidas "gritando como se ter um bebê fosse o maior desastre na Terra" (como diz a obstetra e escritora Christiane Northrup em um trecho), teriam estimulado gerações de indivíduos a pensar assim.

Para deixar a polêmica ainda mais interessante, a diretora vai estar dia 1º no Centro Cultural da Justiça Federal, a partir de 18:30, onde o filme será exibido. Depois, vai haver um bate-papo com Debra, Heloisa Lessa (parteira da Rede para Humanização do Nascimento) e Ricardo Herbert Jones (obstetra e ginecologista).  

Mundo de gente grande e ruínas ("E Buda desabou de vergonha")

Hana Makhmalbaf nasceu em uma família de profissionais ligados ao cinema e, aos 8 anos, produziu seu primeiro filme (um curta-metragem cujo título pode ser traduzido como "O dia em que minha tia estava doente"), exibido no Festival de Locarno em 1997. Hoje, aos 20 anos recém-completos no dia 3, a diretora acumula prêmios e boas críticas mundialmente por "E Buda desabou de vergonha", que está na mostra Expectativa. 
 
No filme, Baktay, uma menininha de 6 anos, quer ir à escola. Simples, né? Até seria se ela não vivesse em Bamiyan, no Afeganistão, onde estátuas budistas milenares foram destruídas em 2001 pelo regime fundamentalista talebã, tendo passado também pelo domínio da ex-União Soviética e, mais recentemente, dos Estados Unidos. Além da miséria em que Baktay vive (é uma dificuldade danada pensar em simplesmente comprar um caderno), a cultura dominante do país é extremamente repressora e excludente com as mulheres. 

No Festival de Berlim desse ano (em que "E Buda desabou de vergonha" foi premiado com o Urso de Cristal por um júri infanto-juvenil), Hana declarou que a produção é destinada tanto a crianças quanto a adultos, já que, para ela, os pequenos copiam os maiores, inclusive em sua violência. "Existem tantas formas de ver o filme quanto há espectadores no cinema e isso também se aplica com o que pode ter acontecido aos personagens que são mostrados no filme", disse.

A doce vida africana pela lente de Malick Sidibé


“A doce vida africana” (2007), do diretor italiano Cosima Spender, é um dos 15 documentários programados para a Mostra Dox. Nele, o cineasta usa a vida e o trabalho do celebrado fotógrafo malinês Malick Sidibé para mostrar uma África pouco vista na cinematografia mundial. Do final dos anos 50 até meados dos 70, Sidibé construiu sua fama ao apontar sua lente para a burguesia da capital Bamako, onde uma vida de festas reunia a minoria privilegiada do país.

Em seu estúdio, o fotógrafo registrou a celebração da alegria e descontração de seu círculo de amigos, que, meio século depois, se reúne para uma conversa reveladora e cheia de nostalgia frente à câmera de Spender. Por meio das fotos de Sidibé, eles tentam reconstruir sua história e revelam o que pensam do Mali e, por extensão, da África de hoje.

O filme oferece uma oportunidade interessante de se pensar a exclusão social de uma perspectiva inovadora. Descobrimos na historia de dominação que caracteriza o continente, um lugar para a saudade de uma doce vida perdida. Vale ainda, é claro, para quem não conhece o excelente trabalho de Malick Sidibé. Veja algumas de suas fotos aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Perceber e transformar a partir do cinema ("Depois da queda de Bagdá")

Nascido no Iraque e radicado na Inglaterra desde 1982, Kasin Abid usa seu olhar cinematográfico não só para observar, mas também para tentar reconstruir seu país natal após 35 anos de ditadura e 3 guerra.


Além de seu trabalho individual, fundou em 2004 a Escola Independente de Cinema e Televisão de Bagdá. A instituição oferece aulas gratuitas, e assim os alunos podem exercitar a visão de quem convive diariamente com as conseqüências dos conflitos. O próprio Abid conhece bem esses problemas: ele teve que fugir da capital iraquiana depois que seu irmão mais novo foi seqüestrado e a escola de cinema bombardeada.


O cineasta estará presente para conversar sobre seu filme “Depois da queda de Bagdá” na sessão que acontece sexta-feira, dia 26, às 18:45h, no Centro Cultural da Justiça Federal. O documentário acompanha de perto as alegrias e amarguras de seus parentes ao reestruturarem suas vidas com o fim da ditadura de Saddam Hussein. Ainda estão na programação do Festival 5 curtas produzidos pela Escola Independente de Cinema e Televisão de Bagdá.


Abid também fará parte do debate “O poder da câmera: Cinema, Mídia e direitos humanos em zonas militarizadas”, no domingo dia, 28, no Centro Cultural da Justiça Federal. Nesse dia os curtas de sua Escola ilustrarão o tema em cheque. Completam a mesa de discussões Samir Abdallah, diretor deDepois da Guerra, a Guerra Continua, Luis Carlos Nascimento da Organização Cinema Nosso e diretor deUma Mãe como Eue João Tancredo da OAB, diretor do IDDH - Instituto de Defensores de Direitos Humanos. Uma oportunidade imperdível para pensar a força da cultura como ferramenta de transformação social.