quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Bate-papo com o diretor Samir Abdallah

O Notícias do Front conversou na tarde de hoje com o diretor Samir Abdallah. Como dissemos ontem, ele está no Festival com o filme “Depois da guerra, a guerra continua”. Abdallah falou sobre as filmagens, política e a importância do ponto de vista do diretor para o documentário.


Abdallah após sessão na Caixa Cultural

Notícias do Front: Você vive na França desde sua infância. Como você se interessou por questões que estão tão longe da realidade européia?

Samir Abdallah: Em primeiro lugar, aquela é a região da minha família e minha também. Em segundo lugar, essa guerra no Líbano, em 2006, teve efeito sobre todas as pessoas do mundo. Por exemplo, na França, nessa época, os conflitos na Palestina e no Líbano tiveram influência direta. Há importantes comunidades árabes e judaicas em confronto lá. As duas guerras foram instrumentalizadas pelo lobby pró-israelita da França e de outros países. Na França, temos algo diferente do que acontece no Brasil: lá, estamos muito mais ligados às nossas origens. Isso acontece porque temos um passado como potência colonial que ainda influencia muito o presente. O problema é que as instituições e os políticos franceses ainda não resolveram os problemas coloniais, então os efeitos desses conflitos têm um impacto grande na Europa. Além disso, vivemos em um mundo globalizado, onde tudo está conectado.

NF: Você acha que as pessoas que vêem seu filme sentem essa conexão?

SA: Não necessariamente, porque eu não falo explicitamente dessa relação no filme. Mas é possível, já que eu mostro jornalistas que estão preparando um jornal e pensando nos motivos e desenlaces da guerra. Mas em um filme não se fala tudo, é preciso que as pessoas pensem e completem as informações por conta própria.

NF: Como você e os jornalistas do filme perceberam o que era preciso mostrar da guerra?

SA: O objetivo do jornal criado por esses jornalistas era abrir um espaço para uma visão crítica da situação no Líbano e na região árabe durante a ocupação. Ele representa uma resposta, uma resistência por meio da informação. Era um jornal diário cuja idéia era analisar como as coisas estavam no momento e como poderiam ficar. Como diretor do filme, eu me concentrei no espírito desses jornalistas e em como o jornal se formava nessa situação. Eu tinha que fazer uma história com isso, eu precisava fazer meus personagens a contarem. Por isso, em cada momento estamos mais próximos de cada um deles. A dificuldade em um filme sobre a criação de um jornal como esse é que não podíamos ficar só dentro do jornal, tínhamos que mostrar as circunstâncias em que ele era criado, tínhamos que mostrar o que se passava lá fora.

NF: Por que você decidiu não usar um narrador para o filme? Isso foi intencional?

SA: Porque eu detesto isso. Como diretor, eu não comento, mas estou presente o tempo todo. Estou presente na maneira como filmo e como conto a história. Acho que o espectador compreende que ele está seguindo uma história guiado pelo diretor. É como um diário de bordo. Eu não quero, com isso, dizer que um documentário nunca pode ter um narrador, mas a diferença entre um documentário e um programa de notícias para a TV é que no primeiro você não precisa repetir de várias maneiras distintas a mesma coisa. Além disso, já há diferentes vozes e visões no filme.

NF: Vemos muitos diretores, hoje em dia, com medo de usar um narrador que pareça impor uma verdade...

SA: Todos têm sua verdade, seu ponto de vista. O diretor precisa mostrar o seu. Mas acho que estamos mais sugerindo, deixando o público descobrir certas coisas por conta própria, do que impondo algo. Mas isso não quer dizer que eu não deva expressar meu ponto de vista. Muitas pessoas dizem que meu filme não é objetivo, que eu não ouço os dois lados etc. Em primeiro lugar, eu não posso estar em Beirute e em Tel Aviv ao mesmo tempo e, em segundo lugar, eu preciso escolher em que me basearei. É uma questão de escolher o que quero dizer. Eu vou lá porque estou envolvido com a história. Se alguém não está satisfeito como meu ponto de vista, que mostre outro. A grande mídia sempre tem a mesma maneira de contar histórias, não há interesse em mostrar a visão daqueles que são marginalizados pela sociedade. Quando você vem com um ponto de vista distinto, é chamado de terrorista e reclamam da sua falta de objetividade. Como disse Godard, objetividade é cinco minutos para os judeus e cinco minutos para os nazistas.

NF: Como era a questão da segurança quando você estava no Líbano?

SA: Durante a guerra, eu estava em Beirute. Podia acontecer alguma coisa, mas havia relativa segurança no dia-a-dia. Depois da guerra, quando eu estava indo para o sul, isso já foi um problema maior. Depois que eu voltei, percebi que, em certos momentos, eu havia sido meio louco. Íamos a certas áreas em que realmente não havia segurança, principalmente por causa das bombas. Mas o que acontece é que quando você vê através da câmera, sua mente está ocupada com a imagem que está capturando. Você vê o mundo de modo distinto, o medo vem depois. Mas não sou nenhum kamikaze, eu estava com amigos e havia um especialista em minas terrestres também. Num momento do filme em que eu estava filmando uma caixa com várias bombas, ele me disse: “cuidado para não deixar a câmera cair aí, senão vamos ser todos explodidos”. Rapidamente, tratei de dar um passo para trás.

NF: Qual você acha que é a reação por parte de pessoas de fora da comunidade árabe à divulgação do conflito?

SA: Na Europa, o problema é que quando a imprensa fala do conflito, mostra empatia com o lado israelense e, para o lado árabe, há apenas estatísticas. A imagem é a de que só existe o terrorismo de um lado e o exército anti-terrorista do outro. No Brasil, eu tive uma boa impressão de como os brasileiros vêem o conflito. Me parece que o preconceito com a comunidade árabe é menor aqui que na Europa.

2 comentários:

Gustavo Feldman disse...

Vocês sabem se esse filme vai entrar em circuito?
Não vou poder ver no domingo.

Luanda de Lima disse...

Olá, Gustavo. Infelizmente, não há previsão para que esse filme entre em circuito.

Grande abraço!