sábado, 4 de outubro de 2008

Os fronts daqui e de lá ( "Feridas" e "O veneno e o antídoto: uma visão da violência na Colômbia")

 
Quem foi ontem ao debate "Uma Saída à vista: paz e guerra na Colômbia e no Brasil", no Pavilhão do Festival, teve a chance de conversar sobre a criminalidade nesses países e a produção de dois filmes sobre os conflitos na Colômbia (o longa de ficção "Feridas" e o documentário "O veneno e o antídoto: uma visão da violência na Colômbia"). Além do pessoal que mencionamos aqui, também faziam parte da mesa Alfredo Sabbagh (produtor de "Feridas", cuja última exibição é hoje no Estação Vivo Gávea, às 20:00) e Pedro Strozemberg (secretário executivo do Instituto de Estudos da Religião e mediador do debate).

"Esse filme não tenta ser uma verdade, mas ajudar junto a outras experiências, a entender um pouco o que está acontecendo lá. Não sei como se pode chegar a um nível de irracionalidade, barbárie e demência tão grande. O mundo está se polarizando muito e a Colômbia está muito polarizada, há poucas vozes de razão. Era um país em perpétua negação, como se nada estivesse acontecendo. Há uma situação muito complicada atualmente, muito incendiária", disse o diretor Roberto Flores sobre "Feridas".

Damian Platt também falou sobre a tendência que os países em conflito apresentam de negar ou ignorar o que acontece com sua população, citando o exemplo da Irlanda do Norte. "Um inglês que não conhece Belfast, um colombiano de Bogotá que não conhece a zona rural ou um carioca que não conhece o Complexo do Alemão é tudo a mesma coisa para mim", disse.

"Apesar de, nesses últimos anos, o governo ter mostrado estatísticas de base real em que os indicadores de segurança não refletem o que o interior colombiano está vivendo. O filme busca uma postura que não seja de direita ou esquerda, mas a da sociedade civil que está no centro de um conflito", disse Alfredo Sabbagh. 

Para Estevão Ciavatta, "é muito bacana ter feito esse filme (sobre 'O veneno e o antídoto: uma visão da violência na Colômbia'), porque é interessante ver a reação dos colombianos (eu tenho muito medo de estar falando de outro país) e como os brasileiros estão interessados na Colômbia. Há 10 anos, a gente tinha muito medo de virar a Colômbia e, hoje, a gente quer ser como a Colômbia, pelo menos como Bogotá e Medellín, que conseguiram aplacar, de alguma maneira, a sua violência. A Colômbia não é só Bogotá e Medellín, existe uma luta muito cruel, uma barra pesadíssima. Já fechamos uma parceria para fazer um filme nesse mesmo espírito sobre o Brasil, que a gente deve filmar no ano que vem".

Já Rodrigo Pimentel abordou com mais ênfase a situação dos índices de criminalidade no Brasil, criticando as rivalidades político-partidárias como um ponto negativo para a solução do problema. Ele falou também da violência promovida pela própria polícia militar e com apoio da sociedade: "Em setembro do ano passado, no complexo do Alemão, a polícia militar, num único dia, matou 26 pessoas em uma operação, todos os mortos sem camisa (o que, segundo ele, é um indício de que foram execuções). O IBOPE fez uma pesquisa e 91% dos cariocas aplaudiram essa operação. A idéia é de que, no Rio de Janeiro e talvez no Brasil, as pessoas estão aplaudindo essa cultura de morte". Ele mencionou ainda o avanço da violência policial nos bairros de classes média e alta e criticou a política de segurança pública de enfrentamento.

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