domingo, 5 de outubro de 2008

Sem refúgio para a alma

Na última sexta-feira, Nick Gogan e Paul Rowley conversaram com a platéia que assistiu a seu documentário “Vista para o mar" no Espaço de Cinema 3. Eles também responderam a algumas perguntas feitas especialmente pelo Notícias do Front. Contaram o que viram durante os 4 anos em que trabalharam no campo de refugiados irlandês de Mosney e como planejaram a estética que realça a vazio interior das pessoas que buscam asilo.

Paul Rowley, Vik - aqui da coord. internacional - e Nick Gogan


Espectador: Como vocês escolheram os personagens, ou foram eles que escolheram vocês?

Paul: Nosso trabalho começou com workshops de vídeo para os adolescentes. As pessoas com quem trabalhávamos foram nos recomendando outras. Ficamos um bom tempo na colônia, um total de 4 anos, fomos conhecendo as pessoas. E quando estávamos com a câmera algumas vinham naturalmente para contar histórias.


E: Por que vocês escolheram o melhor campo de refugiados da Irlanda?

Nick: Primeiro pensamos em fazer um filme sobre os campos da Irlanda como um todo, mas o interessante de Mosney é que é um ponto de referência. Quase todos os irlandeses já estiveram lá em algum momento da vida, na época em que era uma colônia de férias recebia quase 4 mil pessoas por dia. Outra coisa foi a fato de receber famílias, alguns outros só recebem adultos. Queríamos ter contato com as crianças e com as sensações das famílias.

Paul: Além disso, nós só descobrimos que é considerado o melhor campo de refugiados da Irlanda no final das filmagens, ficamos chocados.


E: Vocês mostraram o filme para o governo, para as autoridades que podem fazer alguma mudança?

P: Praticamente todos já viram o filme, os administradores do campo, e claro, as pessoas que aparecem nele. Enviamos cópias para o Governo e o Departamento de Justiça, mas nunca recebemos resposta. Agora grupos que trabalham com refugiados têm trabalhado com o filme, e ele tem sido exibido em universidades.


Notícias do Front: Existia uma integração cultural, ou as pessoas tendem a se dividirem em guetos de acordo com seus países de origem?

N: Isso varia muito. Algumas pessoas são bem ativas, formam grupos de mulheres, anti-racismo, já outras têm medo, se isolam.

P: É como diz uma das personagens do filme: você fica em seu quarto, vê televisão, sai para comer, volta, e no dia seguinte é a mesma coisa. Essa é a experiência padrão do lugar. Além disso, muita gente que chega lá não fala inglês, não tem como se comunicar, fora isso há um enorme medo, as pessoas passaram por experiências muito traumática.


NF: Vimos no filme que as crianças têm aulas. E os adultos, eles recebem alguma educação, como curso de inglês ou profissionalizante?

P:As crianças têm aulas, o que é ótimo, mas os adultos não.


NF: Como vocês planejaram a estética filme, foi algo pensado anteriormente ou depois de conhecerem o espaço?

P:Com a visita ao campo. Uma vez que fomos lá pensamos nisso, sabíamos disso, foi como uma resposta imediata ao lugar. Sabíamos como mover a câmera por aquele campo bizarro.


NF: O lugar estimulou o visual?

P:Exatamente. E outra coisa é que nós inicialmente queríamos fazer uma ficção. E nessa época conversamos sobre como a câmera deveria se mexer, algumas soluções visuais, e depois percebemos que tudo que pensamos anteriormente cabia perfeitamente aqui (no documentário).


NF: Vocês disseram que trabalharam lá por 4 anos...

P: Sim, mas não o tempo inteiro. Íamos e voltávamos, ficávamos por um mês ou dois, trazíamos as filmagens de volta e trabalhávamos nelas. Quando voltávamos as coisas tinham mudado, algumas pessoas tinham ido embora, outra chegavam.


NF: Quando começaram os workshops com as crianças?

P: Desde o princípio. Chegamos ao campo em uma tarde e na seguinte começamos os workshops. Os organizadores do campo não queriam que a gente simplesmente entrasse lá e filmasse, eles queriam que houvesse uma troca. Essa colaboração também foi importante para a gente.


NF: Como os refugiados chegam ao campo?

P: De diferentes maneiras. Alguns, como uma das histórias do filme, chegam de barco. Muitos chegam ao aeroporto e pedem asilo. E assim começa o processo, as entrevistas...


NF: Vocês presenciaram algum tipo preconceito ou conflito cultural entre os refugiados?

N:Não, acho que outros campos são mais violentos, Mosney é familiar.

P:As pessoas estão muito assustadas. Elas também estão preocupadas com seus processos de asilo.  Existe um medo de se comportar mal, eles querem ter o melhor comportamento possível, se houver alguma confusão os administradores do campo saberão. Todos são muito cuidadosos.


 NF: Uma curiosidade, vocês estiveram em Mosney antes de se tornar um campo de refugiados?

 P: Sim, quando era uma colônia de férias, quando eu éramos crianças. Era muito comum as pessoas irem para lá. Era o lugar número um para se ir nas férias

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